segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Estrutura do ensaio filosófico

Um bom ensaio de filosofia tem, geralmente, a seguinte estrutura geral:

Primeira parte: introdução

1. Breve apresentação do problema que será tratado no ensaio. Geralmente, apenas duas ou três linhas. Por exemplo, «Neste ensaio discute-se o problema de saber em que condições uma vida humana poderá ter sentido.»
2. Explicitação da teoria defendida. Geralmente, apenas uma linha. Por exemplo, «A posição defendida neste ensaio é que uma vida humana ativamente entregue a finalidades com valor é uma vida com sentido.»

Segunda parte: desenvolvimento

3. Apresentação mais desenvolvida e articulada dos aspetos fundamentais do problema que será tratado no ensaio. É nesta parte que se fazem distinções concetuais e se esclarecem alguns conceitos centrais importantes, se houver necessidade disso.
4.   Apresentação das posições em confronto.
5. Apresentação pormenorizada da posição que se defende e dos argumentos a seu favor. Resposta às objeções mais prováveis aos argumentos apresentados.
6.  Apresentação dos argumentos mais importantes a favor da posição contrária e respetiva refutação. Resposta a algumas das objeções mais prováveis às refutações apresentadas.

Terceira parte: conclusão
7.  Conclusão: breve recapitulação do problema tratado e da posição defendida.

Almeida, A., Teixeira, C. & Murcho (2013). 50 Lições de Filosofia 10.º ano – Caderno do Estudante. Lisboa: Didáctica Editora, pp. 40-41.

O texto argumentativo – o que é, como se faz

A escrita de um texto (redação) implica o conhecimento de várias técnicas, independentemente do género textual a produzir. Há um conjunto de modelos textuais que utilizamos de acordo com as nossas necessidades comunicativas, pelo que a sua tipologia varia de acordo com o objetivo pretendido.
Basicamente escrevemos um texto para expor conhecimento, para defender uma ideia ou formar a opinião do leitor. Deste modo, a progressão textual (organização de ideias) exige uma articulação e estruturação coerentes.

Texto expositivo-argumentativo
1. Definição – tipo de texto que visa convencer/persuadir o leitor/ouvinte sobre a nossa “verdade” face a um assunto. Neste sentido, assenta numa tese cuja veracidade se demonstra e prova através de um conjunto de argumentos, que sustentam o ponto de vista apresentado, devidamente ilustrados com exemplos plausíveis, oriundos das diferentes áreas do saber. Secundariamente pode rebater contra-argumentos.
A reflexão apresenta um “olhar” muito particular e pessoal de alguém sobre um determinado assunto/problema.

2. Estrutura
- Introdução – parágrafo inicial, no qual se apresenta a proposição (tese, opinião…). Deve ser apresentada de forma assertiva, clara e bem definida, sem referir quaisquer provas ou razões. Pode recorrer-se a uma frase de efeito (A verdadeira função do homem é viver, não existir - Jack London); excerto de autor (Ser descontente é ser homem); referência biográfica /e ou histórica (História como termo também pode verificar toda a informação do passado); provérbio (Quem porfia sempre alcança); definição de conceitos (O Homem é um ser social);
- Desenvolvimento – contém: 
a) análise/explicitação da tese;
b) apresentação dos argumentos que provam a verdade da tese (factos, exemplos, citações, dados estatísticos, entre outros);

- Conclusão - parágrafo final, no qual se apresenta uma síntese da demonstração feita no desenvolvimento; retoma a afirmação inicial.

Nota: Para uma correta argumentação, é necessária a escolha e ordenação dos argumentos que suportam a demonstração da tese; devem ser pertinentes e coerentes, apresentados de forma lógica e devidamente articulada.


Matos, A. & Braga, C. (2017). Preparar o exame nacional de Português – 12.º ano. Braga: Escola Secundária de Alberto Sampaio, p. 104.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

PREPARAR O EXAME NACIONAL DE PORTUGUÊS - 12.º ANO

Preparar o exame nacional de Português – 12.º ano
de

António Alberto Matos e Corina Pinheiro Braga
Braga: Escola Secundária de Alberto Sampaio, 2017


Um grupo de docentes do Departamento de Línguas Clássicas e Românicas da Escola Secundária de Alberto Sampaio [ESAS] publicou um livro prático, auxiliar e sintético destinado a todos aqueles que sentem mais dificuldades na interpretação, na expressão escrita ou na gramática, no momento em que se preparam para enfrentar uma prova final de Português.
Na perspetiva dos seus autores, apresenta alguns traços inovadores.
Assim, procede a um levantamento das questões mais frequentes de resposta restrita, encontradas nos exames nacionais. Orienta, de uma forma prática, na redação da resposta a questões de interpretação. Identifica, além disso, alguns dos principais erros cometidos pelos examinandos.
No referente à gramática, são elencadas as questões abordadas nos exames nacionais de Português – 12.º ano, desde 2007 a 2016, organizando-as por categorias gramaticais, facilitando o seu estudo e apreensão. Aconselha, assim, os discentes no estudo da gramática, alertando-os para as questões mais frequentes, porque consideradas essenciais no domínio da língua, e aquelas em que revelam maior dificuldade.
À semelhança de outros manuais do mesmo género, expõe algumas sínteses de autores e de todas as obras literárias que constam dos programas em vigor.
Por fim, fornece aos alunos orientações muito práticas para a redação do texto expositivo-argumentativo.
Os autores desejam que os seus destinatários se apropriem dos modelos propostos, neste livro, e revelem a capacidade de os superar com o seu espírito criativo.
Esta publicação pode ser adquirida na reprografia da ESAS por qualquer aluno (esteja ou não matriculado no nosso Agrupamento), a um preço simbólico de 2,50 €.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Ética e moral

Em termos etimológicos, a distinção entre ética e moral é negligenciável, na medida em que remete para raízes diferentes mas com significados aproximados. A Ética remete para o grego ethos, que tem o sentido de «carácter», mas também «modo de ser» ou «costume». A moral deriva do latim mos, mores no plural, que traduz sobretudo a ideia de «costume», mas pode também acabar por ter as mesmas acepções que ethos. No uso que estas palavras adquiriram nas línguas modernas e também na maior parte dos pensadores a moral acaba por ser geralmente do domínio do senso comum, i.e., a moral (costu­mes, modos de ser, carácter) geralmente aceite, enquanto a Ética — aqui com maiúscula — corresponde à reflexão filosófica sobre a moral nesse sentido. Por isso o mais usual é fazer equivaler Ética a Filosofia Moral. A Ética ou Filosofia Moral reflecte sobre o domínio da moral do senso comum.
[…]
O domínio da moral comum é uma instituição informal e empiricamente descritível. As sociedades, pelo menos as sociedades humanas, observam conjuntos de regras sobre o que é bom ou mau fazer e sobre o tipo de carácter que é bom ou mau ter. Numa primeira acepção podemos entender o conteúdo dessa «bondade» ou «maldade» como indicando apenas o que é socialmente condenável e o que é alvo de reconhecimento social positivo. No entanto, esse é apenas o ponto de partida da Ética ou Filosofia Moral. Ela parte da instituição da moral do senso comum já existente. Mas procura ir para além da simples aceitação acrítica dessa moralidade e, pelo contrário, encetar um processo de reflexão que confronta a moral do senso comum com as suas contradições e insuficiências.
Não raras vezes, a moral comum faz juízos inconsistentes ou contraditórios, usa conceitos ambíguos e baseia-se em princípios insuficientemente argumentados. A Ética deve assinalar estes problemas, assim como fornecer alternativas intelectual­mente mais robustas.

Rosas, J. C. (2016). Conceitos que pensam a ação. In Maria do Céu Patrão Neves (Coord.). Ética: dos fundamentos às práticas. Lisboa: Edições 70, pp. 83-85.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Valores, juízos de valor e teorias

Valores, juízos de valor e teorias

António Padrão

Hoje não há valores?

Paulo Gonçalves, um dos portugueses que participou no rali Dakar 2016, esteve em grande destaque na sétima etapa, depois de ter parado mais de dez minutos para ajudar Matthias Walkner — um piloto rival — que sofrera um acidente e partiu o fémur. Esta ação poderia ter custado a Paulo Gonçalves a liderança da classificação geral, mas ele não hesitou em parar para ajudar. Mais tarde, escreveria no Facebook:
Fiz aquilo que me competia. […] Não sou um herói, sou um ser humano com respeito pelos outros. A nossa vida vale mais que qualquer vitória, sem ela não vencemos.
O Público, onde li a notícia, refere que Paulo Gonçalves “protagonizou a boa ação do dia na sétima etapa do rali” (Pimentel, 2016).
As nossas ações podem ter várias características. Quando encaradas sob o aspeto pelo qual podem chamar-se boas ou más, têm um valor moral. Ao lermos as declarações de Paulo Gonçalves e a notícia do Público, formamos a crença de que é uma pessoa de valores, ou com valores, querendo com isto dizer que segue bons valores: foi solidário, bondoso e respeitoso com o seu rival. Mas também pode haver quem pense que ele agiu mal, que o importante era o êxito, e, por isso, não devia ter parado para ajudar, aproveitando para reforçar a sua posição de liderança. Perante a posição destes últimos, algumas pessoas dirão que eles “não têm valores”, ou, generalizando, poderão dizer que “hoje não há valores” ou que “vivemos uma crise de valores”. Quem afirma tal coisa é provavelmente quem não aprova que os outros se guiem por valores diferentes dos seus. É claro que hoje há valores como havia há cinquenta, cem ou mil anos. E continuará a haver valores enquanto existirem seres humanos ou outros capazes de valorizar coisas:
Quem declara que não há valores, quer na verdade dizer que a maior parte das pessoas valorizam o que ele não valoriza e não valorizam o que ele valoriza (Murcho, 2011, p. 46).

Subjetivismo, relativismo e objetivismo

Será que podemos dizer que é verdadeiro que Paulo Gonçalves fez uma boa ação?


 Padrão, A. (2016). Valores, juízos de valor e teorias. In Crítica.

Ver o artigo completo aqui:

Artigo originalmente publicado na revista defacto, n.º 24.
Padrão, A. (2016). Valores, juízos de valor e teorias filosóficas. In defacto, n.º 24. Braga: ESAS, pp. 6-8.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Falácia ou não?

Em declarações que foram reproduzidas no Jornal da Tarde da RTP1, no dia 18 de novembro de 2016, Luís Montenegro utilizou o seguinte argumento:
«O PSD dará oportunidade, durante o dia de hoje, de o governo tomar uma posição clara e inequívoca sobre este assunto. Chega de brincar com a Caixa Geral de Depósitos. Se o governo não desmentir a notícia que foi dada de haver um compromisso escrito [para isentar os gestores da Caixa Geral de Depósitos de apresentarem as declarações de rendimentos], não pode haver duas interpretações. Isso significará que o governo confirma a existência desse compromisso, e se esse compromisso escrito existe, nós exigimos que ele seja divulgado ao parlamento, aos deputados, e por via deles também aos portugueses.»
Luís Montenegro (Presidente do Grupo Parlamentar do PSD). RTP1, Jornal da Tarde, 18/11/2016.

Será este argumento falacioso? Porquê?



quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Filosofia para crianças

Na sessão de Filosofia para Crianças, que decorreu hoje na EB1 de Lomar, para comemorar o Dia Mundial da Filosofia, tratou-se da AMIZADE.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Dia Mundial da Filosofia 2016

Comemora-se amanhã, 17 de novembro, o Dia Mundial da Filosofia. O Grupo de Filosofia do Agrupamento de Escolas Alberto Sampaio desenvolve duas atividades, em parceria com a APEFP - Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Filosofia trocada por miúdos

Para compreender o que é a filosofia, vamos primeiro pensar sobre como sabemos nós das coisas. Por exemplo, como sabemos que está a chover em Paris? A resposta óbvia é que sabemo-lo porque, se estivermos em Paris, vemos que está a chover. Contudo, será esta a única maneira de sabê-lo? Não; também podemos sabê-lo porque, apesar de estarmos em Évora, estamos a falar no Facebook com a nossa irmã que está em Paris e ela diz-nos que está a chover.
Estas duas maneiras de saber que está a chover em Paris têm como base a mesma coisa: alguém (nós ou a nossa irmã) olha e vê que está a chover. Ou seja, este tipo de conhecimento tem como base os sentidos — neste caso, o sentido da visão. Porém, em alguns casos temos conhecimento das coisas por meio do sentido da audição (ouvimos uma música ou alguém a falar), do olfacto (sentimos o cheiro maravilhoso de uma laranja acabada de espremer) ou então do tacto (sentimos o calor e a textura especial da areia da praia, num dia de verão).
Será que todo o conhecimento tem por base os sentidos? A resposta óbvia é que não, pois não sabemos matemática pelos sentidos: só sabemos matemática raciocinando. Raciocinamos e sabemos que cinco mais trinta é trinta e cinco, por exemplo.
Além disso, o conhecimento que os sentidos nos dão é muito limitado: a cada momento os sentidos dizem-nos apenas o que está a acontecer. Precisamos de raciocinar para saber coisas mais complexas e menos imediatas: como viviam os dinossauros há oitenta milhões de anos, por exemplo, ou como se ligam as moléculas de oxigénio e de hidrogénio para formar a água.
Portanto, mesmo as coisas que conhecemos pelos sentidos exigem raciocínio da nossa parte. Quando a nossa irmã nos diz no Facebook que está a chover em Paris, temos de raciocinar para concluir que está realmente a chover lá. E o raciocínio é aproximadamente este: ela não teria razão para mentir; além disso, seria improvável que estivesse enganada; logo, está realmente a chover em Paris.
O raciocínio é muitíssimo importante, assim como os sentidos. Algumas coisas só podemos conhecer verdadeiramente pelos sentidos; outras, porém, não podemos conhecer pelos sentidos. É o caso dos assuntos da matemática. E é o caso dos assuntos da filosofia.
Em filosofia estudamos problemas que não podem ser adequadamente estudados recorrendo aos sentidos; só podem ser adequadamente estudados recorrendo ao raciocínio intenso, tal como na matemática. A diferença é que na matemática só estudamos problemas sobre núme­ros, figuras geométricas e coisas desse género. Em filosofia, em contrapartida, estudamos quaisquer problemas que só pelo raciocínio possam ser abordados adequadamente. Por exemplo, será injusto que algumas pessoas tenham dinheiro suficiente para comprar um avião particular, ao passo que outras não conseguem comprar um carro? Se for injusto, por que razão é injusto? E se não for injusto, por que razão não é injusto? Estas perguntas fazem-nos perguntar o que é afinal realmente a justiça: quais são as características gerais que tornam uma sociedade ou situação justa e outra injusta?
Este é apenas um exemplo de uma área de problemas da filosofia; mas há muitas outras áreas. Por exemplo, todos pensamos que há uma realidade exterior aos nossos pensamentos, realidade essa que é em grande parte independente de nós. Contudo, o que justifica tal ideia? Não pode ser apenas o facto de termos várias impressões sensíveis (audição, tacto, visão), pois quando estamos a sonhar também as temos — mas nesse caso não pensamos que a praia com que estávamos a sonhar realmente existe, ou que estávamos realmente nessa praia. Pelo contrário, estávamos era na nossa cama a sonhar. Quem nos garante então que não estamos a sonhar quando pensamos que estamos acordados?
É muito difícil responder às perguntas filosóficas porque não se vê como poderíamos responder recorrendo aos sentidos. Tudo o que podemos fazer é raciocinar muito cuidadosamente, tentando responder de um modo que resista às objecções. É por isso que a filosofia é completamente diferente das religiões. Neste último caso, não se trata de procurar respostas raciocinando intensamente; trata-se, antes, de aceitar as respostas de uma autoridade antiga, ou de um texto sagrado.
A filosofia atrai pessoas que gostam da aventura de pensar, e que não têm medo de saber que não sabem. Em filosofia tendemos a pensar que somos mais sábios quando sabemos que não sabemos do que quando pensamos que sabemos mas não sabemos.
Muitas pessoas irritam-se com a filosofia porque querem respostas e já se esqueceram da excitação que é procurar respostas a perguntas tão difíceis que não há respostas consensuais entre os especialistas. Esqueceram-se da excitação que é explorar o desconhecido, sem garantia alguma de des­cobrir todos os seus mistérios. Para essas pessoas, a filosofia é incompreensível porque, em vez de nos dar uma só resposta para cada problema, dá-nos várias: são as várias tentativas dos filósofos para responder adequadamente aos problemas da filosofia. Só que outros filósofos discordam, e então gera-se uma discussão de ideias.
Para quem gosta de raciocinar, a filosofia é a coisa mais preciosa que temos. Muitíssimo mais preciosa do que a ciência, muitíssimo mais preciosa do que as artes, muitíssimo mais preciosa do que as religiões. Porque é na filosofia que ficamos frente a frente com as perguntas mais difíceis que os seres humanos são capazes de fazer, e não desistimos de tentar responder da maneira mais rigorosa possível, sem abandonar a nossa racionalidade comum, sem invocar autoridades — seja autoridades religiosas, seja autoridades científicas, seja até autoridades filosóficas! 
Murcho, D. (2016). Todos os sonhos do mundo e outros ensaios. Lisboa: Edições 70, pp.165-168.